As apostas on-line, chamadas de bets, movimentaram R$ 397,7 milhões no Espírito Santo apenas em junho deste ano, segundo levantamento do Connect Fecomércio-ES. O estudo aponta que foram realizadas 7,34 milhões de apostas em plataformas digitais no período, com gasto médio estimado de R$ 212,31 por aposta.
Dados de 2024 indicam que mais de 380 mil pessoas fizeram apostas no Estado. A estimativa é de que cerca de 70 mil apostadores tenham movimentado mais de R$ 500 em um único mês.
Entre os municípios capixabas, Ibatiba apresentou o maior gasto médio estimado, de R$ 279 por aposta.
Para o coordenador do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, os números indicam que o fenômeno ultrapassa a dimensão do entretenimento e pode gerar impactos na saúde pública. “Estamos perante algo que vai além de um jogo ou entretenimento, extrapolando para a saúde pública, com atendimentos no SUS”, afirmou.
Spalenza também chama atenção para a facilidade de acesso às plataformas, já que as apostas podem ser feitas diretamente pelo celular. Segundo ele, essa característica pode contribuir para o endividamento dos usuários.
Perfil dos apostadores
O levantamento aponta que aproximadamente 75% dos apostadores capixabas têm renda de até dois salários mínimos.
Entre aqueles atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para tratamento relacionado ao vício em apostas, o perfil predominante é de homens, assalariados, com idade entre 25 e 34 anos, ensino médio completo e renda de até dois salários mínimos.
Segundo o estudo, quase a totalidade desse público está inserida no mercado de trabalho e possui contexto familiar. Apenas 3% das pessoas atendidas estavam em situação de vulnerabilidade social de rua.
A maior concentração de valores apostados está na faixa entre R$ 100 e R$ 500, que reúne cerca de 33% dos apostadores.
Em 2024, os capixabas que fizeram apostas esportivas gastaram, em média, R$ 212,31 por mês. Considerando o rendimento médio mensal de R$ 3.320 no Espírito Santo, o valor equivale a aproximadamente 6,1% da renda mensal.
De acordo com Spalenza, eventos esportivos também podem influenciar o volume de apostas. Ele cita um pico registrado em outubro de 2025 e relaciona o período à reta final do Campeonato Brasileiro, da Copa Sul-Americana e da Libertadores. “Esses eventos funcionam como porta de entrada para o mercado de apostas”, afirmou.
Restrição às apostas
O governo federal assinou, na última sexta-feira (25), uma medida provisória que, segundo o texto divulgado, proíbe a exploração e a publicidade de apostas de quota fixa e jogos virtuais online no Brasil. A restrição inclui apostas esportivas, cassinos e outros jogos digitais, além de publicidade, patrocínios e processamento de transações financeiras relacionadas ao setor.
Com a medida, as 188 plataformas que estavam autorizadas pelo Ministério da Fazenda deixam de poder oferecer apostas e realizar publicidade no País. As empresas devem encerrar as atividades sem direito a indenização, enquanto os apostadores ficam impedidos de fazer novos depósitos, mas mantêm o direito de resgatar saldos e prêmios.
Mídias, clubes e redes sociais também devem retirar anúncios e aplicativos relacionados às plataformas. O descumprimento pode resultar em multas de até R$ 50 milhões. As instituições financeiras, por sua vez, devem bloquear pagamentos via Pix destinados ao setor.
A proibição de novos depósitos entrou em vigor na data de publicação da medida, em 25 de setembro. As operadoras têm até segunda-feira para retirar sites e aplicativos do ar e 12 dias para encaminhar aos órgãos oficiais a relação dos apostadores e respectivos CPFs.
Os usuários têm até segunda-feira (5) para solicitar o resgate dos valores disponíveis. Após o recebimento das listas pelas instituições responsáveis, a devolução deverá ocorrer em até sete dias.
Apesar da restrição, permanece o desafio de combater plataformas ilegais. A estimativa citada no levantamento é de que existam cerca de 17 mil sites irregulares em funcionamento.
“O vício em jogo é comparável à dependência química. A discussão passa pelo desenvolvimento de políticas públicas eficientes e adequadas para tratar o jogo como um problema de saúde pública, focado na prevenção e no tratamento da dependência”, afirmou Spalenza.