quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ao mestre com carinho! 

 

 

No primeiro dia do ano letivo de 1966, procurei uma “carteira” na última fila da sala de aulas do Colégio Estadual ‘Ceciliano Abel de Almeida’ — na secular, aristocrática e ainda escravocrata cidade de São Mateus, no Norte capixaba —, e me sentei, quando entrou um professor temido pelo rigor no ensino de português.

Naquela primeira chamada, cada aluno se levantava para responder “presente” e, quando ele perguntava o que gostaria de ser na vida, ao responder que queria ser médico, advogado, engenheiro, comerciante ou fazendeiro era quase aplaudido, enquanto o professor assinalava um “P” com uma caneta azul no “diário de classe”.

Ao chegar a minha vez, após dizer o meu nome, respondi que queria ser escritor, mas ninguém aplaudiu e houve quase um “silêncio condenatório”.

Surpreso, ele ficou batendo a caneta azul na mesa por uma eternidade de alguns segundos, me olhou no fundo da sala com instigante curiosidade e, depois, com uma caneta vermelha, sublinhou o meu nome no “diário” diante dos olhares indiferentes e ou curiosos dos demais alunos.

Como ele havia publicado um livro — “Canções da Primavera” — o seu instigante olhar era justificável, afinal, naqueles primeiros anos do regime militar, um aluno com pretensões para ser escritor — que, para representar condignamente a plenitude de sua vocação, necessariamente teria que ser “rebelde, contestador e insubordinado” —, aquela resposta representava um forte indício de que cometeria “crimes de consciência, de insubordinação e de anseios de liberdade”. Portanto, não era mesmo para ser aplaudido!

Ao terminar a “chamada”, ele disse a frase característica que o notabilizou, e passou os quatro anos do colegial repetindo-a para a aflição dos alunos que não queriam ser escritor — enquanto achava que ele falava, especialmente, para quem se sentava no último lugar da classe e não era aplaudido — quando repetiu milhares de vezes:

“— Conjugar o verbo…!”, e informava tempo, pessoa, número, modo, aspecto e voz.

E, através daquele seu “insistente ensinamento”, aprendi a arte de escrever e entender o “verbo” em todos os tempos, e, principalmente, a resistir aos “tempos estranhos” — ele não foi preso pela Ditadura Militar, mas foi perseguido e injustiçado — quando ficou conhecido como “Professor Verbolino”.

Hoje, com 144 livros publicados e indicado ao Prêmio Nobel de Literatura — que disputarei em outubro de 2025, na Suécia —, o reencontrei aos 96 anos, ainda lúcido, coerente, resistente e o agradeci pelos verbos que aprendi a conjugar em todos os tempos presente, passado e futuro.

Avelino Olirio de Souza não me ensinou uma profissão para ser rico, “útil à velha sociedade ainda escravocrata” e ou para fazer parte da elite dirigente de São Mateus, mas aprendi a arte de escrever, interpretar e praticar as mais belas e necessárias lições de vida para ser um escritor.

Ele continua sendo o meu professor e sou o mesmo aluno do último lugar da classe, mas sem perder a rebeldia, a contestação, a insubordinação e ou a ternura, jamais!

Obrigado, meu mestre!

Maciel de Aguiar

@escritormacieldeaguiar

WhatsApp 27-999881257

O textos publicados nesta coluna são de responsabilidade do autor.

 

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