O Brasil voltará a ter, a partir desta quinta-feira (1º), um trem regular de passageiros operando no período noturno — algo que não ocorria há cerca de três décadas. O serviço ligará Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, a Cariacica.
A retomada é considerada positiva para o setor ferroviário, mas ainda representa um avanço modesto diante da dimensão do país, que já contou com dezenas de ferrovias em operação simultânea. A partir da década de 1950, o sistema passou por um processo contínuo de sucateamento e perda de protagonismo no transporte de passageiros.
Atualmente, o Brasil conta com apenas dois trens de passageiros de longa distância em funcionamento, ambos operados pela mineradora Vale. O serviço noturno será oferecido na Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), a única ferrovia do país que conecta duas regiões metropolitanas e mantém operação diária.
A outra linha em atividade é a Estrada de Ferro Carajás, que liga São Luís, no Maranhão, a Parauapebas, no Pará, com três partidas semanais em cada sentido.
O declínio do transporte ferroviário de passageiros começou a se intensificar na segunda metade dos anos 1950, quando companhias passaram a reduzir quadros de funcionários, transformar estações em simples pontos de parada e, posteriormente, abandoná-las. O cenário se agravou no fim da década de 1970, com o fechamento de mais de 200 estações pela extinta Fepasa (Ferrovias Paulistas S.A.), criada em 1971 a partir da fusão de cinco empresas ferroviárias falidas.
Na década de 1990, o setor entrou em definitivo ostracismo. A concessão da malha da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), durante os governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, marcou o fim oficial do transporte regular de passageiros — embora, na prática, muitas rotas já estivessem desativadas.
Um caso emblemático foi o da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligava o interior paulista à fronteira com a Bolívia. Conhecida como “Trem da Morte”, a ferrovia teve o transporte de passageiros suprimido após a concessão à iniciativa privada, uma vez que a obrigação de manter o serviço não foi incluída no contrato.
O mesmo ocorreu gradativamente com outras companhias, até restarem apenas os dois trens hoje operados pela Vale. A implantação das viagens noturnas na EFVM, inclusive, atende a uma exigência estabelecida no processo de renovação da concessão da ferrovia.
Atualmente, a empresa mantém viagens diárias com partidas simultâneas às 7h de Belo Horizonte e da estação Pedro Nolasco, em Cariacica, operação que seguirá normalmente com a entrada em funcionamento do trem noturno.
As novas partidas à noite sairão de Belo Horizonte às 19h, com chegada prevista ao Espírito Santo às 8h15 do dia seguinte. No sentido inverso, os trens deixarão Cariacica às 18h, chegando à capital mineira às 7h50.
No caso da Estrada de Ferro Carajás, está prevista para 2027 a implantação de viagens diárias entre São Luís e Parauapebas. Atualmente, o serviço conta com três partidas semanais em cada sentido, com suspensão às quartas-feiras para manutenção.
Mais passageiros
As ferrovias de longa distância transportam, atualmente, cerca de 1,28 milhão de passageiros por ano no Brasil, a maioria deles na linha Vitória a Minas. Em 2024, a EFVM registrou 857 mil usuários e projeta acrescentar, em 2026, cerca de 60 mil passageiros com a operação do trem noturno — uma média de 20 mil por mês durante os três meses de funcionamento.
Já a Estrada de Ferro Carajás, que completará 40 anos de transporte de passageiros no próximo ano, levou 423 mil pessoas em 2024.
Os bilhetes para o percurso completo entre Cariacica e Belo Horizonte custam R$ 87 na classe econômica e R$ 125 na classe executiva. O embarque e desembarque podem ser feitos em qualquer uma das 14 estações ao longo do trajeto de 664 quilômetros, com tarifa proporcional à distância percorrida.
As passagens estão à venda nas bilheterias das estações, em horário comercial, pelo site vale.com/tremdepassageiros e pelo aplicativo Trem de Passageiros Vale, disponível para Android e iOS.