terça-feira, 29 de setembro de 2026

Estresse atinge cada vez mais cuidadores

 

Tal quadro aparece quando a pessoa ultrapassa a capacidade física e emocional de cuidar do familiar incapacitado. Estima-se que dois em cada três cuidadores desenvolvem essa condição em algum momento.

Quando um acidente, uma doença ou a idade avançada chega a algum parente, toda a família é afetada. A necessidade de cuidar, embora gratificante, exige tempo, paciência e alterações na rotina para realizar a higiene pessoal, levar ao médico, administrar as medicações e preparar a alimentação do paciente. Soma-se a isso ainda as tarefas que já faziam parte da programação do cuidador, como trabalho, filhos, gestão da casa e a própria saúde. O resultado, em geral, é uma pessoa que dorme pouco, se alimenta mal, abre mão do lazer e passa por tensões numa jornada que se estende por anos.

De acordo com Lívian Tononi, diretora da Azo Cuidados, empresa capixaba especializada em encontrar cuidadores profissionais, tal desgaste físico e emocional é tão comum que dá origem a um problema sério de saúde: o estresse do cuidador. Esse mal surge quando a pessoa ultrapassa a capacidade física e emocional de cuidar, gerando uma condição que afeta a própria saúde. Estima-se que dois em cada três pessoas que cuidam de um doente desenvolvem a patologia em algum momento.

A diretora conta que é comum o familiar pensar que apenas ele deve cuidar. “Além do laço afetivo, há a sensação de gratidão e cobrança social. Acredita-se que ele deve abrir mão e viver em função de quem precisa, mesmo quando não há condições físicas ou preparo para isso. O resultado muitas vezes é ruim”, explica.

Lívian também conheceu de perto essa rotina cansativa de cuidados. Em 2019, o seu avô ficou internado por quatro meses após um acidente. Durante esse tempo, ela acompanhou a dificuldade de sua mãe para conciliar o acompanhamento no hospital e o trabalho que gerava renda para a família. “Ela passou inúmeras noites dormindo mal no hospital e depois tendo de ir direto para o trabalho. Foram meses sem um dia de descanso”, revela. Vendo-se como parte do problema, Lívian decidiu também ser parte da solução e desenvolveu uma ferramenta para proporcionar a mesma segurança no cuidado, com agilidade na contratação. Foi nesse momento que a Azo Cuidados surgiu.

Sintomas

Segundo Lívian, apesar da alta taxa de incidência, ainda é difícil diagnosticar o estresse do cuidador, uma vez que as pessoas envolvidas, muitas vezes, não enxergam os limites físicos e emocionais que estão ultrapassando. “Elas acreditam que é algo normal, que não estão precisando de cuidados, e acabam num esgotamento sem perspectiva, reconhecendo-o somente quando já evoluiu para uma depressão profunda”, destaca.

O que a diretora da Azo percebe é que, normalmente, os sintomas costumam surgir gradualmente, com insônia ou falta de paciência, irritabilidade, ganho ou perda de peso, dores de cabeça ou musculares, elevação da pressão arterial, taquicardia, gastrite, abuso de álcool, medicamentos ou outras substâncias, até exaustão extrema e depressão.

Lívian revela que o grupo de cuidadores é comumente formado por mulheres com escolaridade baixa e que vivem com a pessoa que está sob seus cuidados, sem nenhum treinamento. Desse modo, o perfil mais comum é a esposa idosa que cuida do marido, a filha solteira que cuida dos pais, e a mãe que cuida da criança. “A depressão do cuidador acomete mais as mulheres que são parentes diretas dos pacientes, geralmente por causa do papel sociocultural. É por isso que é tão comum ser ela quem abandona a carreira profissional ou se divide em jornadas duplas exaustivas para cuidar em tempo integral. A vida social e, consequentemente, a rede de apoio minguam, enquanto as outras pessoas continuam suas vidas”, afirma.

Além disso, crenças limitantes pioram o quadro. “O cuidador familiar, mesmo quando tem condição financeira, às vezes tem a sensação de que se ele terceirizar estará abandonando o familiar. Então, não percebe o quanto estaria ajudando a si mesmo e ao familiar que está doente. A pessoa sente-se esgotada mentalmente, com uma série de emoções conflitantes, como medo e culpa, além de privações de sono, alimentação e lazer. O resultado é um autoabandono”, esclarece a diretora.

Como tratar o estresse do cuidador

É fundamental entender que, nesses casos, quem é cuidador precisa tanto de cuidados quanto o familiar incapacitado. Desse modo, a primeira coisa é aliviar a fonte de estresse e reduzir a sobrecarga de trabalho. “Às vezes, abrir mão do cuidado do familiar é um processo gradual. Atendemos famílias que pedem um cuidador para algumas horas ou um fim de semana para terem um momento de lazer e voltarem recarregadas. Cuidar de si também é uma forma de cuidar do paciente incapacitado. Promover o cuidado certo é uma das melhores formas de cuidar”, aconselha Lívian, que também sugere a participação em atividades que socializam, como esportes ou terapia de grupo, além de acompanhamento psicológico e médico, quando necessário.

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