segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Lula é reeleito presidente e terá 4º mandato após virada histórica sobre Flávio Bolsonaro

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25), conquistando um quarto mandato e protagonizando uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras entre o primeiro e o segundo turno. O petista derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) e ampliará o período de governos do Partido dos Trabalhadores (PT) desde a redemocratização do país.

Até as 21h15, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) citados na apuração, Lula somava 51,76% dos votos válidos, contra 48,24% de Flávio Bolsonaro. O resultado foi considerado matematicamente definido pela Justiça Eleitoral.

A diferença entre os candidatos caminhava para se tornar a menor registrada em uma eleição presidencial brasileira desde a redemocratização. Até as 21h16, Lula tinha 4.343.081 votos a mais que o adversário, superando a margem de 2.139.645 votos que separou o petista de Jair Bolsonaro (PL) na disputa de 2022.

Com a vitória, o PT amplia seu histórico de conquistas presidenciais. Desde o retorno das eleições diretas para presidente, a legenda venceu seis disputas, segundo o levantamento apresentado no balanço eleitoral. O partido perdeu para Fernando Collor, então no PRN, em 1989; para Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994 e 1998; e para Jair Bolsonaro, então filiado ao PSL, em 2018.

Desafios do quarto mandato
Aos 80 anos, Lula ampliará o próprio recorde de presidente mais velho a tomar posse. Ele completará 81 anos na terça-feira (27). Michel Temer, que assumiu aos 75 anos, e Getúlio Vargas, aos 68, aparecem na sequência do ranking mencionado no levantamento.

Caso conclua o novo mandato, Lula terá acumulado 16 anos na Presidência da República, considerando os períodos de 2003 a 2010, de 2023 a 2026 e o próximo governo. Getúlio Vargas permaneceu no cargo por cerca de 18 anos e meio, a maior parte durante o Estado Novo.

Na economia, um dos principais desafios será conduzir a política fiscal diante do aumento da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Integrantes da equipe econômica da campanha já haviam sinalizado a necessidade de conter despesas para evitar um agravamento das contas públicas nos próximos anos.

O presidente também terá de governar em um cenário de forte polarização política e com um Congresso Nacional no qual a direita bolsonarista ganhou força. A redução do espaço do centro liberal e do Centrão pode dificultar a formação de maiorias para aprovar projetos de interesse do Executivo.

Outro ponto de atenção será a relação com o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise envolvendo integrantes da Corte e a possibilidade de processos de impeachment contra ministros, especialmente Alexandre de Moraes, devem integrar o cenário político do próximo mandato. No terceiro governo, Lula contou com o apoio institucional do Supremo em momentos importantes para a governabilidade. Agora, terá de administrar uma relação política mais complexa para avançar com sua agenda.

Balanço do terceiro governo
Lula iniciou o terceiro mandato em janeiro de 2023 sob o impacto dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro. A reação institucional ao episódio, somada à estratégia de frente ampla adotada durante a campanha, contribuiu para ampliar o apoio ao presidente no começo do governo.

Antes da posse, o petista também precisou negociar com o Congresso a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que permitisse acomodar despesas prometidas durante a campanha, entre elas a manutenção do Bolsa Família em patamar elevado.

No primeiro ano de governo, a gestão aprovou a reforma tributária sobre o consumo e o novo arcabouço fiscal, modelo que substituiu o teto de gastos. A política econômica conduzida pela equipe liderada inicialmente pelo então ministro da Fazenda Fernando Haddad também incluiu medidas de aumento da tributação sobre segmentos de maior patrimônio, como fundos exclusivos e investimentos no exterior por meio de fundos offshore.

A estratégia eleitoral de Lula
A campanha de reeleição começou oficialmente com um ato em São Bernardo do Campo, no estádio da Vila Euclides, local associado às mobilizações sindicais do ABC paulista durante a década de 1970. A escolha buscou reforçar a trajetória política de Lula e apresentar a candidatura como uma defesa do legado construído ao longo de sua carreira.

No início da disputa, a campanha petista evitou ataques muito contundentes a Flávio Bolsonaro. A estratégia tinha como objetivo reduzir o risco de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deixar o cargo para disputar a Presidência. Na avaliação de integrantes do PT, Tarcísio poderia representar um adversário mais competitivo.

O resultado do primeiro turno, no entanto, levou a campanha a rever sua atuação. Após ficar atrás de Flávio, Lula e seus aliados discutiram mudanças na estratégia. Em um encontro com integrantes do partido, o presidente chegou a classificar aquela como a campanha “menos organizada” de que participou desde 1989.

O presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha, Edinho Silva, perdeu espaço nas decisões estratégicas. Em contrapartida, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), o senador Camilo Santana (PT-CE) e o senador eleito Rui Costa (PT-BA) passaram a ter participação mais relevante.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, Edinho Silva e a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, também foram alvo de críticas em discussões internas do partido.

A campanha ganhou novo impulso com uma atuação mais coordenada nas redes sociais, liderada pelo deputado André Janones (Rede-MG), reeleito para a Câmara. Ele criou um canal no WhatsApp para organizar apoiadores e ações digitais, que reuniu mais de 10 milhões de usuários em cerca de duas semanas, segundo os dados apresentados.

Manifestações realizadas em diferentes regiões do país também contribuíram para mobilizar apoiadores e reduzir a distância entre os candidatos. Lula iniciou o segundo turno atrás de Flávio nas pesquisas e chegou à reta final em situação de empate técnico, embora numericamente permanecesse atrás em parte dos levantamentos.

Medidas anunciadas durante a campanha
A divulgação, em maio, de conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro, provocou turbulência na campanha bolsonarista e aumentou o otimismo entre aliados de Lula.

Entre maio e agosto, Flávio recuperou parte do apoio perdido após a divulgação das conversas. Em meados de setembro, passou a aparecer empatado com Lula dentro da margem de erro ou numericamente à frente em algumas simulações de segundo turno. No primeiro turno, porém, o petista havia permanecido à frente do adversário nos principais levantamentos citados no balanço.

Na reta final, a campanha de Lula passou a destacar medidas de apelo popular. Entre elas estavam o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, a proposta de proibição das apostas online, conhecidas como bets, e o anúncio de uma nova etapa do programa Desenrola, voltado à renegociação de dívidas.

O presidente também prometeu disponibilizar medicamentos para emagrecimento no Sistema Único de Saúde (SUS) e articulou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a aprovação e promulgação do fim da escala de trabalho 6×1.

Outras iniciativas anunciadas incluíram o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), a promessa de repasse de R$ 5 mil para cada MEI e o envio de uma proposta de emenda à Constituição para instituir tarifa zero no transporte público aos fins de semana.

O conjunto de medidas foi apresentado como uma tentativa de recuperar o fôlego eleitoral e ampliar o apoio ao presidente nas últimas semanas da disputa. A campanha chegou ao encerramento do segundo turno com os dois candidatos próximos nas pesquisas, antes da vitória de Lula confirmada pela apuração eleitoral.

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