As últimas movimentações do tabuleiro político do Espírito Santo mostraram que chegou a hora de separar homens e meninos. A conversa ficou séria e colocou no xadrez improváveis composições para quem não conhece a palavra sincretismo político.
Obviamente, não há perdedores nem vencedores; o que temos são provocações das bolhas políticas e uma enxurrada de suposições que mexem com o imaginário de quem acompanha os bastidores. Uma coisa podemos afirmar: essas eleições não seguirão os caminhos exatos das demais, vai ter emoção.
Destarte, ficam algumas observações tanto para a situação quanto para a oposição. Vamos lá:
a) Renato Casagrande: “Não pode continuar sendo a opção daqueles que não têm opção. Precisa ser a opção.”
Sem dúvidas, o governador que mais entregou obras e avanços nas últimas três décadas. Um pentecostes de realizações e números impressionantes. Contudo, parece que a parte política não acompanhou o ritmo administrativo, como quase aconteceu em 2022, quando o governo não fez o trabalho preventivo e não calculou tão bem a sua reeleição. Apostou na perigosa postura de ser a opção daqueles que ainda não tinham alternativa, correndo riscos desnecessários. Casagrande ainda é o veterano jogador que todo time jovem precisa.
b) Política do Governo: “Menos beligerância e mais política.”
A certeza desconhecida fez o governo “bailar” com o abismo e “flertar” com a noite. Aliás, os atores da política do governo Casagrande não pouparam antíteses nem economizaram beligerâncias, com secretários anunciando pré-candidaturas, enfrentando aliados e subestimando os acordos que sustentaram e ainda sustentam o governo. Houve outras situações que desidrataram possíveis complementos, esbarrando na mediocridade de quem disputa espaço, e quem disputa espaço nem sempre ganha eleição. Ainda dá tempo de recompor algumas coisas; basta o governo não confiar novamente na enganosa narrativa de ser a opção daqueles que ainda não têm opção. O adversário hoje é outro, e uma reflexão sobre algumas decisões não faz mal a ninguém.
c) Paulo Hartung: “O fantasminha camarada que não deixa o Palácio.”
O fantasma do Palácio parece ter orgasmo ao assombrar os corredores do Anchieta. Sem diminuir ou reduzir os verdadeiros protagonistas, ninguém tem dúvidas de que ele está por trás de toda essa movimentação política por parte da oposição. Todavia, o que realmente assusta é o fato de o fantasma não ter capa nem caneta, mas andar, e andar muito no silêncio das nuvens e nos previsíveis erros do governo. Paulo Hartung, adepto do positivismo político, entrou no jardim do Palácio sem arrombar o portão, sem ferir as outras flores e colheu uma das rosas mais desejadas. Literalmente, Hartung fez ou está fazendo o casamento entre o cravo e a rosa, sem convidar o girassol.
d) Pazolini e Arnaldinho: “Romário e Edmundo, os bad boys capixabas.”
Na política, você conversa com Deus e com o diabo, o problema é quando conversa demais com o diabo. Longe de saber quem é Deus e quem é o diabo nesse namoro que pode virar noivado e resultar em casamento. A presente união entre os dois prefeitos tem muito ganho; entretanto, pode ter muita perda, pois o governo não vai atirar contra o próprio crânio. Casagrande não tem vocação suicida. A resposta do governo virá; só não sabemos quando e, dependendo do calibre e do momento, pode ser certeira ou não ter mais sentido e efeito. A mais nova dupla precisa se preparar, porque do outro lado não há bobo, muito menos menino. Ainda que Casagrande não tenha traços de imperador, a mão deve pesar; resta esperar qual será o tom e a medida. Há quem aposte no espetáculo como resposta e na desproporcionalidade como consequência. Vamos ver quem tem a melhor couraça.
e) A Inflação Política: “Tem gente que custava 10 e agora pode custar 100.”
Subestimar possibilidades é um erro crasso na política, um limite imperdoável, principalmente quando não faltam avisos e acenos. O tabuleiro fala, e os estridentes fatos apontam para algumas convergências e divergências, sinais claros que anunciam o alvorecer de cada manhã. É como reformar uma casa e vendê-la depois. Nos escombros, o preço era um, após a reforma, as cifras subiram. A dona de casa foi para a academia, torneou as pernas, colocou silicone e não economizou no botox. O passe agora está custando caro, caríssimo.
Enfim, a ópera não está mais no ensaio geral, ela já começou. Os acordes estão sendo testados, os tenores se posicionando e os figurantes tentando ganhar fala antes que a cortina se feche.
Não vencerá quem cantar mais alto, mas quem sustentar a aguda nota até o fim. Mais do que alianças improváveis ou movimentos silenciosos, o que realmente pode ser o diferencial é a capacidade dos atores de antecipar cuidadosamente o próximo capítulo, pois no fim das contas, não haverá espaço para iniciantes nem para quem ainda se julga a única opção no grande palco.
A plateia pode até aplaudir o espetáculo, no entanto, a maioria vota em quem demonstra habilidade para comandar o roteiro, porque o tempo da política não é o mesmo tempo dos indivíduos, há muita coisa para acontecer ainda. Afinal, um dia na política vale mais que mil.
Weverton Santiago
Teólogo e Cientista Político
As opiniões contidas no texto, são expressões do autor.