terça-feira, 6 de outubro de 2026

Saúde sem honra e sem dignidade

 

Um evento, supostamente patrocinado pelo Ministério da Saúde do Brasil – divulgado em um vídeo como sendo do ‘’I Encontro de Mobilização e Promoção da Saúde’’, postado nas redes sociais -, precisa receber o repúdio e a reprovação de todos nós, os brasileiros, sobretudo os profissionais que fazem da sublime função de cuidar das pessoas doentes um sacerdócio, pois a saúde pública não pode ser tratada de forma vulgar, irresponsável e banal.

Quando jovem, na cidadezinha que me acolheu feito uma mãe postiça, na década de 1960, existia uma campanha, capitaneada pelo Lions Clubs International, que tinha o slogan: ‘’Saúde da mulher para proteger a sociedade!’’

Aparentemente, era uma ação que deveria conscientizar as pessoas para as doenças venéreas que proliferavam, mas o pano de fundo era condenar as prostitutas que habitavam os casarões do Porto de São Mateus, no Norte capixaba, transformados em cabarés após as elites escravocratas os abandonar com o fim da escravidão.

O Porto de São Mateus viveu o seu esplendor econômico com o comércio de compra e venda de gente – onde milhares de africanos foram comercializados de 1800 a 1850 -, e fez a fortuna de muitas famílias coroadas como os Santos Neves, Oliveira Santos, Vieira Souto, Barata Ribeiro, Faria Lima e Abreu Sodré.

Com a Lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de negros da África para o Brasil, o negócio mais lucrativo da escravidão entrou em declínio e essas famílias coroadas, que tinham tentáculos nas grandes capitais brasileiras, passaram a se mudar da cidadezinha perdida no anonimato do país.

No entanto, durante seis anos, ocorreu um intenso tráfico clandestino de negros, que seriam escravizados, até que, pressionada pela Inglaterra, a Marinha do Brasil apreendeu, na embocadura do rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê, a escuna norte-americana Marie Smith, com 350 angolanos que foram devolvidos à África e os traficantes presos, colocando um ponto final no comércio de gente que tinha no Porto de São Mateus – em função das correntes marítimas, que abreviavam em 50% a travessia do Atlântico -, o seu apogeu em função do ‘’custo-benefício’’.

Porém, as elites escravocratas encontraram uma ‘’solução para continuar o negócio lucrativo’’, que tinha no negro a sua, digamos, ‘’principal mercadoria’’, e criaram 16 fazendas de reprodução, como empresas legalmente constituídas, com vários reprodutores e centenas de ‘’matrizes negras’’.

Com a Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871, essas fazendas sofreram um golpe fatal quando se estabeleceu que as crianças negras, nascidas a partir daquela data, deveriam ser livres e os poderosos senhores seriam os seus tutores até a maior idade de 21 anos.

Não obstante isso, a lei que deveria proteger as crianças negras fez com que milhares delas fossem assassinadas para ‘’não se tornarem enteadas’’ das famílias coroadas e, principalmente, ‘’não ter direito à herança’’.

E, pasmem, matou-se mais recém-nascidos em São Mateus, no Norte do Estado do Espírito Santo, do que Hitler matou os nascidos nos campos nazistas. Como Hitler matou judeus, por certo será condenado ad immortalitatem, e, como as elites brasileiras mataram crianças negras, serão absolvidas pela historiografia oficial para virar nomes de ruas, praças, viadutos e avenidas de nossas cidades.

Assim, após a Abolição da Escravidão, as poderosas famílias coroadas começaram a abandonar a cidadezinha de São Mateus e se mudar para Vitória, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, enquanto o Porto de São Mateus – do esplendor econômico do passado – virou um gueto onde os antigos sobradōes foram transformados em cabarés.

Como os ricos e poderosos escravocratas haviam abandonado a cidade, a nova sociedade dirigente passou a se constituir de famílias remediadas e emergentes, que eram ainda mais preconceituosas, e proibiram as prostitutas de serem atendidas no Hospital Maternidade São Mateus, que tinha como diretora uma ex-freira que, mais tarde, foi professora, escritora, vereadora e promotora do MPES.

Assim, o atendimento médico às prostitutas passou a ser feito pelo farmacêutico Roberto Arnizaut Silvares, gratuitamente, na Farmácia Silvares, na Ladeira São Gonçalo, que descia ao Porto de São Mateus, também conhecido com Cidade Baixa, mas as doenças venéreas como herpes genital, sífilis, cancro e gonorreia, se espalhavam com enorme velocidade, pois os que frequentavam os cabarés levavam essas doenças para as suas esposas, na Cidade Alta, e elas resultaram na campanha ‘’Saúde da Mulher’’, que visava atender às mulheres da sociedade emergente e excluía as prostitutas.

Assim, um grupo de estudantes do Colégio Estadual Cecíliano Abel de Almeida, desceu ao Porto, reuniu as prostitutas em uma inédita passeata até a porta do Hospital Maternidade e do Fórum, cantando o slogan: ‘’Saúde da mulher, prostituta também quer!’’

Como estávamos em 1967, em plena vigência da ditadura militar, o juíz determinou a expulsão das prostitutas dos cabarés do Porto, e estas foram mandadas para as suas cidades de origem e ou para um bairro afastado que se chamou ‘’Encruzo’’.

Mas as prostitutas lutaram heroicamente para se manter nos antigos sobradões do Porto de São Mateus e, principalmente, pelos direitos à saúde e à vida que lhes eram negados pelo governo, mas muitas delas morreram corroídas pelas doenças venéreas e abandonadas.

Hoje, ao ver o vídeo irresponsável e inconsequente de um evento do Ministério da Saúde do Brasil, vulgarizando a saúde pública, lembrei-me da época em que as lutas pela dignidade humana e pelos direitos à saúde pública eram virtudes das pessoas mais excluídas da sociedade, mas ninguém se prestava a um papel ridículo, vergonhoso e abjeto.

Portanto, senhora ministra, a saúde pública não deveria ser tratada de forma tão vulgar, inconsequente e irresponsável como a exibida no vídeo do ‘’I Encontro de Mobilização e Promoção da Saúde’’, pois, consoante o que circula nas redes sociais, ao banalizar a saúde pública, o Ministério da Saúde do Brasil comprova que não demonstra ter a honra e muito menos a dignidade das prostitutas dos cabarés do Porto de São Mateus.

Maciel de Aguiar

Escritor das barrancas do rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê.

@escritormacieldeaguiar

WhatsApp 27-999881257

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