domingo, 25 de fevereiro de 2024

Documentarista investiga memória, imagem e saúde mental com o filme “Minha Bê”.

 

Uma foto, um nome e memórias difusas da infância. No documentário “Minha Bê”, a diretora Adriana Jacobsen busca por Beatriz, que trabalhou na casa de sua família como babá, nos anos 1960, e após um surto foi internada no extinto Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, em Cariacica. A pré-estreia acontece na próxima terça-feira (11), às 9h, no Cine Metrópolis, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória.

No filme, a diretora reencontra a única foto que tem de sua babá e não a reconhece. O documentário, então, investiga a história de Beatriz e o processo de desaparecimento de alguém da memória pessoal e coletiva. Nessa investigação, o espectador é levado pela narração da própria diretora e imagens de arquivo das décadas de 1960, 1970 e 1980 que se mesclam com depoimentos atuais.

O ponto de partida é a entrevista com o médico psiquiatra, psicanalista e escritor Ruy Perini. Ele trabalhou no hospital em que Beatriz foi internada e ambienta cenários possíveis para o transtorno vivido por ela – e para que Adriana possa percorrer os rastros deixados pela própria memória.

Desse momento em diante, o filme parte em busca de pessoas que poderiam ter convivido com Beatriz e chega à Roda D’Água, zona rural de Cariacica, local onde a diretora sabia que a babá possuía familiares.

“Minha Bê” também contou com imagens de acervos familiares, da Cinemateca Brasileira e da TVE Espírito Santo. “Há muito queria relembrar a história dessa mulher que fez parte da minha infância e que de repente sumiu da minha vida, mas que ficou na minha memória. Era uma ausência sempre presente. Nunca deixei de pensar na Beatriz”, afirma Adriana.

A diretora percebeu que aquela era não apenas sua própria história, mas também uma história exemplar sobre as relações de poder na sociedade brasileira. “Eu queria deixar isso registrado e reencontrei o Lucas Bonini, com quem já tinha trabalhado antes. Ele é um entusiasta do arquivo e buscamos criar no filme uma espécie de atmosfera que de alguma forma remetesse à minha memória das décadas em que a história se passa”, explica, fazendo menção a seu parceiro de projeto, com quem assina em conjunto a produção e a montagem do curta-metragem.

Narrativas de uma mesma história

Além da premissa do documentário, “Minha Bê” expõe os resquícios escravocratas por trás da contratação de empregadas domésticas que se viam obrigadas a renunciar à própria vida para se dedicar à dos patrões.

“A história se passa em uma época na qual as mulheres que trabalhavam como empregadas domésticas tinham quase nenhum direito e muitas vezes moravam na casa dos empregadores. Imagine as consequências disso para a psique de uma pessoa, que é obrigada pelas circunstâncias a renunciar a seus próprios desejos em prol de uma família que não é a sua. Creio que minha visão, meu testemunho, é importante porque vivi isso na infância, com pouco filtro, com o olhar curioso e de espanto de uma criança”, pontua Adriana.

O filme também revela uma nítida mudança no trato das doenças mentais ao longo dos anos. Esses temas serão discutidos na sessão de pré-estreia da obra, durante a Semana Calórica de Psicologia da Ufes.

“O documentário dá voz a um médico e uma enfermeira que trabalharam muitos anos no sistema de saúde mental do Estado. Eles contextualizam bem o tratamento de doentes mentais no fim do século passado. A exibição será seguida de um debate e creio que a exibição pode levantar questões bem relevantes para os alunos de Psicologia. Vai ser um primeiro teste de reação ao filme em uma sala de cinema, estou muito curiosa”, ressalta a documentarista.

O filme “Minha Bê” é produzido pelo Instituto Marlin Azul e realizado com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria da Cultura, por meio do edital de produção de documentários.

Sobre a diretora

Adriana Jacobsen é realizadora audiovisual, licenciada em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo, graduada e mestre em Ciência da Comunicação pela Universidade Livre de Berlim. Codirigiu o premiado documentário “Outro Sertão”, sobre a estadia de João Guimarães Rosa na Alemanha nazista. Em 2023, codirigiu a minissérie “Fato e Versão”, sobre fotojornalistas capixabas.

Sinopse

“Minha Bê” parte da dissonância entre a representação e a memória. A diretora reencontra a única foto que tem de sua babá e não a reconhece. Narração, imagens de arquivo das décadas de 1960, 1970 e 1980 e depoimentos atuais se mesclam na investigação por vestígios de Beatriz. Participação: Ruy Perini, Maria Lopes, Anita e João Falcão, Nete e Daniel Falcão.

 

SERVIÇO

Pré-estreia de “Minha Bê”

Quando: 11/04 (terça-feira)

Horário: às 9 horas

Local: Cine Metrópolis, campus da Ufes, em Goiabeiras, Vitória

Entrada gratuita

Matéria relacionada

Cariacica + Perto de Você: diversos serviços de cidadania neste sábado (24)

Cariacica + Perto de Você: diversos serviços de cidadania neste sábado (24)

    A população de Porto Novo vai poder conferir diversos serviços de cidadania na 16ª edição do Cariacica + Perto de Você, que acontece neste sábado (24), no antigo

PL de Cachoeiro vai anunciar nome de pré candidato a Prefeitura na próxima 5° feira

PL de Cachoeiro vai anunciar nome de pré candidato a Prefeitura na próxima 5° feira

  Após os dias acelerados na cidade de Cachoeiro, onde o vereador Júnior Corrêa (PL) decidiu retirar seu nome da disputa, o PL agiu rápido e vem arquitetando seu palanque

Assembleia Legislativa do Espírito Santo celebra 150 da imigração italiana com exposição interativa

Assembleia Legislativa do Espírito Santo celebra 150 da imigração italiana com exposição interativa

  A Assembleia Legislativa do Espírito Santo inaugura no dia 21 de fevereiro a exposição "Camata - A Voz da Imigração Italiana", uma experiência única que homenageará o saudoso líder

As mãos de Ferraço no episódio Juninho Correa, será?

As mãos de Ferraço no episódio Juninho Correa, será?

  Fontes revelaram que o ex-prefeito e atual deputado estadual Theodorico Ferraço foi na desejada macieira do Partido Liberal cachoeirense (PL), pegou a bela maçã, poliu e a jogou no

Primeiro dia do Carnaval no Centro de Vitória reúne 100 mil pessoas

Primeiro dia do Carnaval no Centro de Vitória reúne 100 mil pessoas

  O início do Circuito da Folia na capital capixaba foi marcado pela presença de aproximadamente 100 mil foliões, celebrando o início do Carnaval. Uma iniciativa inédita da Prefeitura Municipal

Assembleia retoma sessões ordinárias com 32 projetos na ordem do dia

Assembleia retoma sessões ordinárias com 32 projetos na ordem do dia

  A primeira sessão ordinária de 2024 da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES) ocorre nesta terça-feira, 6 de fevereiro, às 15 horas. O presidente da casa de leis capixaba,

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima