A chegada de novas canetas de semaglutida ao mercado brasileiro está provocando uma transformação que vai muito além da ampliação da oferta de medicamentos.
Com novos produtos agora autorizados pela Anvisa, as farmácias começam a rever diferentes pontos de seu modelo de atuação, da gestão de estoques e negociação com fornecedores às estratégias de preço, descontos, relacionamento e orientação ao consumidor.
O movimento ganhou força após a chegada do Ozivy, da EMS, primeiro medicamento de semaglutida sintética aprovado pela Anvisa após o fim da patente do Ozempic. Em julho, a agência aprovou mais cinco medicamentos da mesma classe: Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema.
A entrada simultânea de novos concorrentes cria uma dinâmica inédita para o varejo, que passa a lidar com uma categoria de alta demanda, maior variedade de produtos e consumidores cada vez mais atentos a preço e disponibilidade.
Na prática, as canetas estão reformulando a forma como as farmácias precisam trabalhar essa categoria. Mais do que decidir quais produtos manter nas prateleiras, o varejo terá de acompanhar a velocidade da demanda, comparar condições comerciais, ajustar estoques, avaliar estratégias de preço e descontos e fortalecer a capacidade de orientar o consumidor sobre as alternativas disponíveis.
A mudança ocorre em um mercado no qual o preço ainda representa uma das principais barreiras ao acesso. Pesquisa nacional realizada pela Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias), por meio do IFEPEC, com 1.067 médicos em maio de 2026, identificou que apenas 28% dos pacientes aptos conseguem manter financeiramente a terapia com medicamentos GLP-1, enquanto 65% interrompem o tratamento ou deixam de seguir corretamente a posologia por limitações financeiras.
Na avaliação dos médicos entrevistados, uma redução de aproximadamente 35% nos preços poderia elevar de 28% para cerca de 45% a parcela de pacientes com condições financeiras para manter o tratamento. O cenário reforça que a concorrência pode alterar não apenas a disputa entre fabricantes, mas também a maneira como o varejo se posiciona diante de uma categoria com forte demanda reprimida.
Para Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas, a transformação representa uma mudança importante na dinâmica do segmento.
“A concorrência começa a assumir um papel muito mais relevante no mercado de GLP-1. A chegada de novos fabricantes aumenta a oferta e cria condições para que a indústria e o varejo trabalhem com diferentes estratégias comerciais. Ainda não é possível afirmar qual será a dimensão da redução de preços, mas é razoável esperar que um mercado com mais opções e mais empresas disputando espaço seja muito diferente daquele que tínhamos quando poucos produtos concentravam a demanda”, afirma.
Concorrência muda dinâmica das farmácias
A transformação provocada pela entrada de novos medicamentos não deve se restringir à indústria. Para o varejo farmacêutico, o aumento da concorrência pode significar uma mudança na forma como as redes trabalham uma categoria que ganhou grande relevância entre consumidores e profissionais de saúde.
Com mais fabricantes, as farmácias passam a ter potencialmente maior variedade de produtos, preços e condições comerciais para avaliar. Isso pode aumentar a importância da gestão de estoque, da análise de demanda, da negociação com fornecedores e da capacidade de orientar o consumidor sobre as diferentes opções disponíveis no mercado.
Para Fábio Chacon, diretor da Farmarcas, o cenário exige que o varejo esteja preparado para uma categoria que deverá ganhar ainda mais relevância.
“Estamos diante de uma categoria que já apresenta uma demanda muito forte e que agora começa a passar por uma transformação competitiva. Para o varejo, isso significa acompanhar de perto a chegada dos novos produtos, entender a demanda dos consumidores, avaliar as condições comerciais e garantir que a expansão da oferta aconteça dentro do canal regular de medicamentos. A farmácia terá um papel cada vez mais importante nessa jornada”, afirma.
A concorrência também pode ampliar o espaço para programas de descontos, ações de relacionamento e estratégias de fidelização. Em um mercado no qual o preço é apontado pelos médicos como uma das principais barreiras à continuidade do tratamento, a capacidade do varejo de oferecer alternativas e facilitar o acesso pode se tornar um diferencial competitivo.
Primeiro concorrente já sinaliza mudança
A transformação começou a ganhar forma com a aprovação do Ozivy, da EMS, em maio. O produto foi o primeiro medicamento de semaglutida sintética análoga ao Ozempic autorizado pela Anvisa e marcou a entrada efetiva de uma alternativa nacional após o fim da patente.
A chegada do produto abriu uma nova etapa de competição no segmento. A EMS passou a estruturar inclusive uma estratégia específica de comunicação para o Ozivy, indicando a relevância que a categoria adquiriu dentro dos planos comerciais da companhia.
Em julho, a Anvisa ampliou significativamente esse cenário ao aprovar cinco novos medicamentos de uma só vez. Owozy, da Ávita Care, Seemasun, da Sun Farmacêutica, Zempneo, da Brainfarma, Semavy, da Cosmed, e Orsema, da Ranbaxy, foram registrados para tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlado. Os produtos foram avaliados por comparação com o Ozempic.
A Anvisa informou que a iniciativa faz parte de um processo de priorização da análise de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida iniciado em 2025, motivado, entre outros fatores, pela necessidade de ampliar o abastecimento do mercado nacional. Até o momento da aprovação dos cinco novos medicamentos, a agência havia analisado 11 dos 24 candidatos incluídos nesse processo, resultando em seis aprovações.
Mais oferta não significa queda imediata de preços
Apesar do potencial de transformação, a entrada de novos produtos não deve ser confundida com uma redução automática e imediata dos preços. A aprovação regulatória é apenas uma das etapas necessárias para que os medicamentos cheguem efetivamente às farmácias.
Os fabricantes ainda precisam definir suas estratégias comerciais, preços e distribuição. Por isso, o impacto sobre o consumidor deverá ser observado ao longo dos próximos meses, conforme os novos produtos efetivamente passem a disputar mercado.
Para Tamascia, esse período será importante para entender como a concorrência se traduzirá em acesso.
“A pesquisa da Febrafar mostra claramente que existe uma demanda reprimida por causa do custo. Se a concorrência conseguir produzir uma redução consistente nos preços, teremos potencial para ampliar o número de pacientes capazes de iniciar e manter o tratamento. Mas esse processo precisa ser acompanhado de perto, porque não basta aumentar o número de registros. É preciso que os medicamentos efetivamente cheguem ao mercado e estejam disponíveis para a população”, afirma.
Médicos veem espaço para novas alternativas
A pesquisa da Febrafar também mostra que a expansão da oferta encontra receptividade entre os profissionais de saúde. A maior parte dos médicos entrevistados demonstra disposição para incorporar novas alternativas terapêuticas à prática clínica, desde que apresentem comprovação de qualidade, segurança e eficácia compatíveis com os medicamentos já disponíveis.
O levantamento ouviu profissionais de Clínica Médica, Cardiologia, Medicina de Família e Comunidade e Endocrinologia de todas as regiões do país. Foram 544 médicos do Sudeste, 206 do Nordeste, 169 do Sul, 96 do Centro-Oeste e 52 do Norte.
Os profissionais também relataram diferentes benefícios associados aos medicamentos da classe GLP-1, como controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2, redução da compulsão alimentar, perda de peso e efeitos positivos relacionados a condições associadas à obesidade, além de benefícios cardiovasculares, renais e hepáticos.
Para Tamascia, a ampliação do mercado precisa ser acompanhada de acesso responsável e orientação adequada. “Estamos falando de medicamentos que exigem acompanhamento médico e que podem ter papel importante no tratamento de doenças crônicas. O crescimento da oferta é positivo quando acontece dentro de um mercado regulado, com produtos aprovados, prescrição adequada e orientação aos pacientes. A ampliação da concorrência não pode significar redução dos cuidados com a segurança”, afirma.
Crescimento exige atenção ao uso irregular
O avanço da categoria também traz desafios para o varejo e para toda a cadeia de saúde. A pesquisa identificou que, em média, 7% dos pacientes chegam aos consultórios relatando já ter utilizado medicamentos GLP-1 sem prescrição médica antes da primeira consulta.
O dado reforça a importância da atuação das farmácias regulares na dispensação desses medicamentos. A própria Anvisa vem ampliando medidas de fiscalização e combate a irregularidades envolvendo importação, manipulação e comercialização de canetas de GLP-1.
Em junho, por exemplo, a agência determinou a proibição do funcionamento de uma plataforma que oferecia consultas, indicação de medicamentos e entrega de produtos para tratamento da obesidade sem as autorizações necessárias. A Anvisa reforçou que medicamentos comercializados fora de farmácias e drogarias regulares não oferecem as mesmas garantias de origem, composição e qualidade.
“O crescimento desse mercado precisa acontecer dentro da legalidade. Quanto maior a procura, maior também deve ser o cuidado com a origem dos medicamentos, a prescrição e a orientação ao paciente. O farmacêutico é um elo fundamental nesse processo e pode contribuir para o uso racional, a adesão ao tratamento e a segurança do consumidor”, afirma Chacon.
Uma nova disputa pelo consumidor
A entrada de novos fabricantes representa, portanto, mais do que o aumento do número de medicamentos disponíveis. Ela inaugura uma disputa por consumidores em uma categoria na qual preço, disponibilidade, confiança e orientação profissional podem se tornar fatores cada vez mais relevantes.
Para o varejo farmacêutico, o cenário tende a exigir uma combinação maior entre gestão de estoque, inteligência de mercado, negociação comercial e capacidade de atendimento. Para os consumidores, a ampliação da concorrência pode significar maior possibilidade de escolha e, potencialmente, preços mais acessíveis.
O efeito definitivo dependerá da velocidade com que os novos medicamentos chegarão às farmácias e das estratégias adotadas pelos fabricantes. Mas, com seis produtos aprovados e outros candidatos ainda em análise, a estrutura competitiva do mercado brasileiro de semaglutida já começa a ser diferente.
“Estamos apenas no início de uma nova configuração desse mercado. A chegada de mais fabricantes mostra que a indústria acredita no potencial da categoria, enquanto a pesquisa demonstra que existe uma demanda importante que ainda não consegue acessar ou manter o tratamento por causa do preço. Se conseguirmos combinar concorrência, disponibilidade, segurança e orientação adequada, o impacto poderá ser significativo para todo o varejo farmacêutico”, conclui Tamascia.