quinta-feira, 11 de junho de 2026

Energéticos: veja se funcionam mesmo e quais os riscos de misturar com álcool.

 

Quase mil litros. Essa é a quantidade de energético que cada brasileiro toma por ano – considerando a população total do país. Se levarmos em conta apenas os adultos, o consumo desse tipo de bebida, que promete melhorar a concentração e o rendimento em atividades físicas, é ainda maior.

E esse número só tem aumentado: em uma década, houve um crescimento de 200% na produção. Segundo os dados mais recentes, o volume nacional em 2021 chegou a 185 milhões de litros por ano. Os cálculos são da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas não Alcóolicas (ABIR).

Especialistas apontam que a alta no consumo tem relação com uma mistura perigosa: energético + álcool. Pesquisas indicam que a cafeína do energético mascara o efeito letárgico do álcool, encorajando as pessoas a beberem mais e a terem comportamentos de risco, como dirigir embriagado.

Em 2010, a agência regulatória norte-americana Food and Drug Administration (FDA) reconheceu o perigo de emisturar energético e álcool e proibiu a venda de drinks prontos que tivessem a mistura de álcool e cafeína.

Outro ponto que acende o sinal de alerta é que os energéticos entregam a metade da recomendação diária de açúcar em uma única latinha.

Além disso, em algumas marcas, a cafeína, que é o principal ativo, fica perto do limite recomendado de 400 miligramas por dia.

A seguir, confira como funcionam os energéticos e quais os riscos de misturá-los com álcool.

1 – Os energéticos funcionam?

Segundo especialistas, é fato que os energéticos funcionam e esse resultado se baseia em duas substâncias: o açúcar e a cafeína.

O açúcar é transformado em glicose e gera a energia. Algumas marcas têm até 27 gramas de açúcar por latinha. Isso é mais da metade do consumo diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de até 50 gramas.

Já a cafeína age no sistema nervoso central. Suas moléculas são parecidas com as da adenosina, um neurotransmissor que é liberado conforme gastamos energia e dá os sinais de cansaço. Então, quando a cafeína entra no corpo, ela confunde o cérebro, bloqueando a adenosina e causando o efeito de alerta.

Algumas marcas ainda anunciam como ingrediente estimulante a taurina, que é um aminoácido que existe em grande quantidade no corpo humano, principalmente nos músculos, no cérebro e nos olhos.

Apesar das altas quantidades dessa substância em várias marcas de energético, não existe consenso científico sobre sua função como estimulante.

2 – Energético é a melhor opção para quem quer energia?

Os energéticos unem a cafeína e o açúcar, entregando o estímulo que prometem. No entanto, o que os especialistas afirmam é que eles não são a melhor opção.

O educador físico Bruno Gualano, que é professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, explica que, em razão do alto teor de açúcar presente no energético, uma xícara de café é mais recomendável.

“O mecanismo de ação estimulante é o mesmo, que é a cafeína. Não existe evidência de que o energético seja superior ao café. E essas bebidas ainda têm uma quantidade enorme de açúcar. Então, com isso, o café é a melhor opção”, explica.

O médico neurologista Marcel Simis, diretor da Associação Paulista de Neurologia, explica que, além disso, é preciso tomar cuidado com a dose. Tomar várias latas de energético pode ser prejudicial.

O energético tem alta concentração de cafeína e, combinado a uma alimentação já com outros componentes que também têm cafeína, pode chegar a doses que causam vício. Nesse caso, quem toma tem o efeito oposto ao desejado de ter foco e energia.

“Os jovens que buscam a cafeína para melhorar desempenho precisam saber que, em excesso, ela, na verdade, piora o desempenho. As doses altas podem gerar o vício e, com ele, as crises de abstinência de café. Os sintomas são a irritabilidade e a fadiga, que é o efeito contrário que quem toma busca”, diz Marcel Simis, médico neurologista.

3 – Energéticos têm contraindicação?

A OMS estabelece como limite a dose diária de 400 mg de cafeína para adultos. Isso representa até quatro xícaras de café em cápsula ou quatro latinhas de energético, a depender da marca.

No caso do café, é preciso considerar que cafés instantâneos ou solúveis têm menos cafeína do que cafés torrados e moídos. O neurologista Marcelo Simis explica que o excesso de cafeína pode trazer efeitos colaterais como: arritmias cardíacas; ansiedade; vertigens; insônia; problemas de estômago; diarréia; agravamento de problemas como crises de pânico.

“A cafeína em uma dose acima desses limites de segurança pode trazer sintomas como aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. Então, pessoas com problemas cardíacos, com sintomas de ansiedade e insônia precisam ter cautela porque podem ter os efeitos amplificados”, explica Simis.

Além disso, a cafeína pode viciar: Conforme a pessoa aumenta a quantidade ingerida de cafeína, o organismo começa a metabolizar mais rápido. Com isso, a quantidade de adenosina (que é o neurotransmissor que dá o sinal de cansaço) aumenta e vai ser necessário mais cafeína para suspender esse ciclo.

Com esse processo, o corpo dá respostas que podem levar a uma espécie de ritual de ingestão diária de cafeína alta, que pode se tornar viciante. E o organismo começa a dar os sinais de abstinência, caso a substância não seja ingerida.

“Se a pessoa já toma café, já come outros alimentos com alguma quantidade de cafeína e inclui energético, ela precisa saber que isso pode ultrapassar o limite diário e tem consequências para a saúde”, alerta Gualano.

4 – A mistura de energético com álcool tem riscos?

Uma mistura comum, apesar de perigosa, é a de álcool e energético. Com o apelo dos mais diversificados sabores, há receitas de drinks que levam a bebida como saborizante, apesar do aviso nas embalagens de que não é recomendado o consumo com bebida alcóolica.

A alta no consumo de energéticos no País também é puxada pela mistura, popular especialmente entre os mais jovens.

A cafeína e a bebida alcoólica têm efeitos opostos. Várias pesquisas indicaram que, quando unidas, essas substâncias causam reações graves:

O estimulante da cafeína neutraliza o efeito sedativo do álcool, dando uma falsa sensação de sobriedade, o que faz com a pessoa aumente a ingestão de bebida alcóolica. Ou seja, a pessoa acha que está sóbria e, por isso, ainda pode beber.

Outro ponto é a exposição a comportamentos de risco. O álcool tira a inibição e isso é reforçado pela cafeína. Pesquisas mostram que isso faz com que as pessoas estejam mais propensas a comportamentos de risco como dirigir alcoolizado, se envolver em brigas e fazer sexo desprotegido, por exemplo.

“O álcool tem efeito depressor, atua inibindo a atividade do lóbulo frontal no cérebro, que controla os nossos impulsos. Por isso, a pessoal alcoolizada fala o que não queria [se estivesse sóbria], fala alto, fica mais agressiva. O julgamento dela piora e, então, se coloca em risco. Isso, combinado com a bebida estimulante, aumenta o potencial de a pessoa se colocar em risco porque o efeito depressor do álcool é mascarado”, explica o médico Marcel Simis.

Nos Estados Unidos, esses foram os pontos que a FDA levou em consideração para suspender a venda de bebidas alcoólicas comercializadas com a mistura.

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