
Não me lembro, precisamente, do mês e muito menos do dia daquele início de “os anos de chumbo”, mas jamais esquecerei dos acontecimentos!
No final da década de 1960, um desconhecido cidadão apareceu em São Mateus, Norte do Estado do Espírito Santo, quando eu disputava uma eleição para o Grêmio Estudantil ‘José de Alencar’, e, no pátio do Colégio Estadual ‘Ceciliano Abel de Almeida’, quando acabava de discursar, senti a sua mão sobre a minha cabeça e a puxá-la, generosamente, para junto do seu lado esquerdo do peito, em plena vigência da ditadura militar no Brasil.
Assim, jamais o esqueci e o carreguei em minhas lutas pela liberdade — fui viver no Rio de Janeiro, entrei na semiclandestinidade, publiquei livretos em mimeógrafo, sem o crivo da censura, nos sótãos das pensões de terceira categoria da Lapa, Catete e Gamboa —, testemunhei a morte lambendo os calcanhares quando muitos corpos não tinham direito a sepultura, e escrevia nos muros e tapumes a frase mais lida por nossa geração: ABAIXO A DITADURA!
Com a Anistia, ao retornar a São Mateus, contrariando o conselho de meu amigo Carlos Imperial — “Fazer sucesso no Espírito Santo é crime” —, ele era governador do Estado, mas enfrentava as velhas oligarquias usurpadoras em destemidos atos de coragem, persistência e ousadia, como interditar os fornos da poderosa CST.
E essas elites o atacavam com difamação e passaram a chamá-lo de “Tartaruga”, possivelmente por sua severa determinação em conduzir o Estado do Espírito Santo e, sobretudo, proteger o sagrado dinheiro público diante dos ávidos interesses pecuniários que há décadas se locupletam do erário.
E, em uma convenção partidária, em Vila Velha, quando ele discursava, solicitei um aparte e o chamei pela alcunha com que as elites, pejorativamente, o nominavam, causando uma enorme surpresa e um inesperável espanto nos presentes, quando disse:
— Quero agradecer à heroica resistência e à existência desse governador tartaruga!
Ele abriu os estarrecidos olhos e parecia não entender como um antigo aliado se atrevia a chamá-lo daquela denominação, até então, depreciativa, causando apreensão, e justifiquei:
— Meu caro governador, entendo a surpresa e o estranhamento de muitos por chamá-lo pela mesma denominação com que alguns contumazes usurpadores das nossas riquezas e devastadores do nosso território utilizam para ofendê-lo; mas, ao contrário, sinta-se honrado, homenageado e agradecido;
— A tartaruga é o único animal que olha para os céus, fotografa as estrelas em sua magnífica memória antes de entrar no mar imenso e misterioso para viver a longa aventura de sua vida. E, depois de navegar os oceanos e enfrentar os imensuráveis perigos, ela volta ao local onde nasceu e ou escolheu para viver e perpetua a sua espécie;
— A heroica e destemida tartaruga consegue refazer esse ciclo por dezenas de vezes com a mais absoluta fidelidade à terra por ela escolhida, em mais de um século de existência, enfrentando milhares de famintos, perversos e assassinos tubarões; mas não se intimida, não se acovarda, não se amedronta e muito menos se torna refém desses predadores, pois ela possui um casco duro, mergulha nas profundezas com a imensurável força de suas nadadeiras, sobe à superfície para respirar e volta a olhar os céus, procurando as estrelas para desovar no mesmo local onde nasceu e ou escolheu para viver, marcando, indelevelmente, o seu sentimento de gratidão e fidelidade;
— Não existe animal com maior amor a terra que o acolheu ou foi por ela escolhida, não existe animal com mais coragem para enfrentar os gananciosos inimigos, não existe animal com maior resistência às adversidades, assim como não existe animal que deveria merecer mais admiração e servir de exemplo para os seres humanos dignos, generosos e justos;
— E, ao contrário dos gananciosos tubarões que estão sendo impedidos de continuar assaltando os cofres do Estado, ao chamá-lo de “Tartaruga”, pensando que o estão denegrindo a sua imagem, na verdade, estão homenageando um homem que ama a sua terra como poucos, enfrenta a corrupção, não pratica o peculato e não se deixa intimidar pelos que querem se manter no poder no Espírito Santo como se ainda vivêssemos em uma Capitania Hereditária;
— Portanto, meu caro governador tartaruga, a partir de agora, sinta-se homenageado pela comparação com uma espécie animal que os seus detratores jamais conseguirão imitar e muito menos valorizar a sua existência e resistência. Muito obrigado!
Fui, calorosamente, abraçado por ele, que, novamente, encostou a minha cabeça em seu lado esquerdo do peito.
No outro dia, o resistente governador Max de Freitas Mauro mandou confeccionar centenas de miniaturas de tartarugas, colocou uma delas na lapela de seu terno e distribuiu as demais para muitos capixabas para que, também, pudessem enfrentar as adversidades impostas pelos usurpadores que queriam se revezar no poder.
Hoje, quando o destemido ex-governador Max de Freitas Mauro beija a face da eternidade, vivemos duas décadas com o Estado do Espírito Santo sendo dominado por gestores toscos, mentirosos, farsantes, fascistas e dissimulados, e precisamos de novas “tartarugas” para enfrentar os que se perpetuam no condomínio do Palácio Anchieta, como uma propriedade privada.
Que surjam novos destemidos capixabas como alguém que — mesmo não nascendo em nosso território — quando aqui chegou, olhou para nossas estrelas, fotografou os céus da bela e encantadora cidade de Vila Velha, navegou as maiores profundezas, não temeu os famintos e devoradores tubarões, e sempre retornou até a escolher como a sua última morada.
Então, neste momento mais vertical de nossa História — quando a desfaçatez se apodera do Estado do Espírito Santo, obstruindo a verdade, cooptando quase todos os partidos políticos, amordaçando grande parte da imprensa, impondo à maioria dos intelectuais uma posição genuflexa —, que o legado de Max de Freitas Mauro sirva de exemplo aos nossos governantes ou a quem interessar possa.
Maciel de Aguiar
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