A presente análise traça um paralelo entre o desfecho das eleições de 2022 e o retrato capturado pelos institutos Datafolha, Paraná Pesquisas e Futura neste início de março de 2026. A comparação revela um fenômeno de “derretimento” da vantagem lulista e uma transferência eficiente de capital político na direita brasileira.
Vejamos:
1. O Encolhimento da Margem de Segurança: Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) oficializou a vitória de Lula com 50,90% dos votos válidos contra 49,10% de Jair Bolsonaro. Foi a eleição mais apertada da história democrática recente, definida por uma vantagem de 2,1 milhões de votos.
Os dados de março de 2026 mostram que Lula perdeu essa “gordura”. No levantamento do Datafolha (07/03/26), o presidente aparece com 46% contra 43% de Flávio Bolsonaro. Se em 2022 a diferença era de 1,8 ponto percentual, hoje ela oscila perigosamente dentro da margem de erro. Institutos como Paraná Pesquisas e Futura já colocam o herdeiro bolsonarista numericamente à frente em cenários de segundo turno.
2. A Migração do Pragmatismo e o “Voto Útil” Invertido: Em 2022, cerca de 8% dos eleitores optaram por nomes de terceira via no primeiro turno, migrando majoritariamente para Lula na etapa final sob o argumento da “garantia democrática”. O cenário de 2026 sugere que esse eleitor de centro não está mais com o governo.
O esvaziamento de nomes como Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior (que somam entre 9% e 12%) não tem beneficiado o Planalto, mas sim Flávio Bolsonaro. O eleitor que em 2022 votou no PT por rejeição a Jair Bolsonaro, agora parece inclinado a votar no PL por rejeição à gestão econômica atual.
3. A Inversão da Rejeição (Fator Crítico): O dado mais alarmante para o governo é a inversão dos índices de rejeição. Enquanto Jair Bolsonaro terminou 2022 com um teto que impedia seu crescimento, Flávio Bolsonaro inicia 2026 com uma resistência significativamente menor que a do pai, permitindo que ele avance sobre o eleitorado moderado que Lula conquistou há quatro anos.
4. O “Não Merecimento” como Novo Norte: A comparação prova que o governo Lula entrou na zona de risco. Se em 2022 o motor da eleição foi a rejeição ao titular (Bolsonaro), em 2026 o combustível passa a ser a desilusão com o atual ocupante (Lula).
A fatia de 52% que hoje afirma que Lula “não merece” ser reeleito é quase idêntica à soma de Bolsonaro + brancos/nulos de 2022. Isso indica que o presidente não conseguiu furar a bolha e, ao contrário, começa a perder partes de sua base periférica devido à inflação e ao sentimento de estagnação. O empate técnico de hoje é, na prática, uma vitória estratégica da oposição, que conseguiu herdar o espólio bolsonarista sem carregar, até o momento, o mesmo peso de rejeição do patriarca.
Enfim, o jogo começou de verdade e os números mostram uma correlação direta entre os cenários de 2022 e 2026 na corrida presidencial. Os dados apontam para um possível efeito cascata nos estados, criando uma dinâmica que tende a levar o eleitor a decidir o voto apenas na reta final, uma “parusia” política que tende propiciar rupturas e mudanças significativas.
Weverton Santiago
Teólogo e Cientista Político
As opiniões contidas no texto, são expressões do autor.