domingo, 25 de fevereiro de 2024

Marcus Magalhães destaca pontos da cafeicultura capixaba e perspectivas para 2023.

 

A cafeicultura é a principal atividade

agrícola do Espírito Santo, desenvolvida em todos os municípios capixabas – exceto Vitória. Cria em torno de 400 mil empregos diretos e indiretos e está presente aproximadamente em 60 mil das 90 mil propriedades agrícolas do Estado.

Dessa produção, em torno de 73% dos produtores capixabas são de base familiar, com o tamanho médio das propriedades em 8 hectares. Existem 131 mil famílias produtoras capixabas. Em entrevista ao jornal e site Folha da Vila, Marcus Magalhães, diretor da MM Cafés, detalhou pontos importantes da produção cafeeira e falou das perspectivas para a atual safra no Estado.

Folha da Vila – Como iniciou os trabalhos na cafeicultura? Pode falar do seu início?

Marcus Magalhães – Comecei na cafeicultura há muitos anos, desde 1988, quando eu formei na Universidade Vila Velha (UVV), em Administração. Eu entrei no Negócio Café para fazer aqueles estágios para formatura e me encantei com o setor. E desde então eu estou há mais de 30 anos, militando nessa área da cafeicultura, levando informação ao campo, mudando a vida das pessoas, com mais socialização da informação.

Isso faz com que a gente tenha uma história bastante longa e bem escrita na cafeicultura, não só do Espírito Santo como no Brasil inteiro. E eu sou atualmente conhecido carinhosamente no Brasil todo no negócio do café como a “voz do café”. Então eu tenho aí, desde 1988, uma caminhada no setor, levando informação, fazendo negócios tanto com conilon quanto com arábica. E, mais recentemente, nos últimos três anos, também operando no varejo com o café com o meu nome Café Marcos Magalhães, distribuído na Grande Vitória e em alguns marketplaces para o Brasil inteiro.

Folha da Vila – Quais os maiores desafios e dificuldades da cafeicultura?

Marcus Magalhães – Os desafios são inúmeros: o desafio de encarar as mudanças climáticas, de encarar os desafios fiscais e trabalhistas e encarar os desafios mercadológicos. A agricultura, não só a cafeicultura, é caracterizada como uma indústria a céu aberto. Ou seja, a gente na hora que vai dormir, desde a hora que acorda, tem desafios de toda ordem no setor.

Mas a gente pode cravar hoje que atualmente, o maior desafio da cafeicultura, além de uma modernização do processo, é encarar as adversidades climáticas, que a cada dia que passa ficam mais constantes, tirando o sono do setor produtivo.

E isso faz com que o agro tenha que mudar um pouco a sua percepção, ter um pouco mais de conservadorismo no que se refere aos investimentos e, principalmente, trabalhar com seguros agrícolas para que ele possa mitigar um pouco as adversidades que temos pela frente. Porque com relação a preço, se a gente tiver uma alta produtividade pela própria economia de escala, a gente consegue contornar. E mesmo porque preço é uma, como o café, uma cultura de ciclo perene, ele tem a volatilidade, ele sobe, cai, não tem jeito.

Então acredito que desafio mesmo é enfrentar a adversidade e buscar trazer para o nosso negócio, principalmente produtivo, o maior nível possível de tecnologia, para a gente poder assim, ter um pouco mais de margem para trabalhar no dia a dia, ou seja, colocar a agricultura 4.0, agricultura 5.0 realmente no campo para a gente angariar novos mercados, mas principalmente também tendo como pano de fundo a sustentabilidade, que é algo tão importante, tão na moda atualmente, não só no Brasil como no mundo.

Folha da Vila – Que tipos de café o senhor trabalha? Qual tem mais mercado?

Marcus Magalhães – Existe dois tipos de café, o arábica e o conilon. Eu na área de prestação de serviço, na área de compra e venda na área de corretagem, eu atuo nas duas qualidades, tanto no conilon quanto no arábica, valendo a observação que o Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do Brasil, o primeiro em produção de café conilon.

A gente tem buscado nos últimos anos aqui no Espírito Santo, ter uma um avanço na qualidade, tanto no conilon quanto no arábica, que vem sendo quase a nível nacional. Tanto é que nos últimos concursos que nós tivemos de qualidade nos últimos anos, o Espírito Santo sempre ficou entre os três melhores produtores e cafés que foram apresentados nesses concursos no Brasil e no varejo.

Opero com café 100% arábica porque foi uma estratégia de negócio que criei em função de ser um mercado muito desafiador no varejo. Eu preferi, num primeiro momento, entrar com um café 100% arábica para oferecer ao consumidor um café de altíssima qualidade.

Folha da Vila – Qual a expectativa para a produção da próxima safra?

Marcus Magalhães – Nós estamos entrando em uma safra cafeeira agora em maio, para frente tanto de conilon quanto de arábica, uma safra desafiadora. Vamos lembrar que nós estamos vindo de dois ciclos produtivos complicados no Brasil, em função de ter havido em Minas Gerais geadas nos últimos anos que maculou a safra produtiva.

E no caso específico do Espírito Santo, nós tivemos ano passado muita ventania, muito vento frio, chuva que passou da conta em algumas regiões. Ou seja, nós estamos trabalhando. Realmente é uma safra, como eu sempre falo, com muitas perguntas e poucas respostas. Mas de fato, o que temos de dados oficiais do governo é que vamos colher uma safra ao redor de 55 milhões de sacas de café entre conilon e arábica nesse próximo ano.

Folha da Vila – Como está a formação dos preços e exportação para a próxima safra?

Marcus Magalhães – Os preços estão começando a safra mais ou menos estabilizados, com níveis acima do que alguns operadores estavam esperando.

Estamos trabalhando conilon orbitando R$ 650, o arábica, dependendo de qualidade, orbitando um pouco mais, um pouco menos, dependendo de hora de bolsa e dólar. E o mercado assim de clima chegando com muita rapidez, o que pode ajudar a sustentar os níveis vigentes.

Vamos lembrar que esse mercado de clima é quando o inverno chega e as frentes frias sobem no mapa, trazendo apreensão para as regiões produtoras, porque sempre no inverno tem a possibilidade das famosas geadas. E Deus me livre guarde, se isso acontecer outra vez, é mais um fator de estresse para os preços, indicando um ciclo de alta para os mesmos. Ou seja, é um momento mercadológico de muita ansiedade, de preços firmes.

Os estoques mundiais não são confortáveis e as demandas, bem ou mal, independente de juro mais alto na Europa e nos Estados Unidos, tem se mantido constante. Ou seja, a gente começa uma safra com perspectivas interessantes e produtivas. Se nós olharmos os dados oficiais do governo e, na minha visão, com tendência de preços no pior dos mundos, sustentados em reais do que está sendo cotado atualmente, mas não consigo descartar a possibilidade de leves melhoras no radar, se houver no decorrer de 2023 algum sinistro climático.

Folha da Vila – Qual período do ano é considerado propício para colheita?

Marcus Magalhães – As colheitas se iniciam tradicionalmente, o conilon entre abril e maio, e arábica entre maio e junho. Esse é o período onde se iniciam as colheitas.

Tradicionalmente, as colheitas perduram entre 2 e 3 meses, ou seja, até final de julho e início de agosto, a safra praticamente está colhida, salvo a exceção das regiões mais altas a regiões mais frias, que consegue prolongar essa colheita um pouco mais para frente, talvez meados de setembro. Mas o grosso do café do Brasil é colhido até meados de agosto.

Folha da Vila – O que é terraceamento?

Marcus Magalhães – O terraceamento é uma pegada produtiva interessante, onde você alarga um pouco as ruas do café quando eles são plantados em morro. Não existe terraceamento no plano, é só realmente uma pegada que a gente tem de melhorar um pouco o acesso das lavouras para os produtores. Em região montanhosa, ele alarga um pouco a base onde os cafés estão estão plantados. Isso ajuda tanto na adubação quanto na colheita.

É muito mais uma estratégia produtiva do que qualquer outra coisa, mas muito mais focada nas regiões das montanhas do Espírito Santo e, logicamente, do Leste e do Sul de Minas Gerais. É uma região e é uma pegada produtiva específico da região das montanhas.

Folha da Vila – Quais são os principais exportadores do café capixaba?

Marcus Magalhães – As exportações capixabas, se nós olharmos pelo retrovisor, a gente tinha num passado de 10, 20 anos, a predominância das empresas familiares capixabas. E com o decorrer do tempo e com o avanço da globalização dos mercados, as multinacionais realmente vieram com força para o Espírito Santo e o Brasil. Hoje os maiores exportadores, são uma mescla entre multinacionais e empresas capixabas. Mas vale uma percepção de que uma grande parte do café ou uma grande parte do café é produzido no Espírito Santo.

Ele é exportado pelo porto do Rio de Janeiro e pelo porto de Santos, porque os calados aqui existentes hoje em Vitória não permitem que grandes navios venham buscar o café aqui. Ou seja, o café quando é embarcado em Vitória, porque por via marítima, é muito mais uma cabotagem até um grande porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro ou Santos, em São Paulo. E de lá entra nos grandes navios porta contêineres que levam esse café para o mundo.

É possível que daqui alguns anos a gente volte a ter esse protagonismo na exportação de café por portos capixabas, já que existem é grandes portos sendo construídos no Espírito Santo, como eles chamam de águas profundas, que permitirão que grandes navios venham ao Espírito Santo e que tirem de vez esse gargalo logístico que a gente tem. O café capixaba, às vezes, vai de cabotagem de Vitória para grandes hubs portuários como Sepetiba e Santos, ou vai via rodoviário para também Sepetiba e Santos, levando e escoando a produção capixaba.

Isso é um gargalo logístico que tem tirado o sono dos exportadores capixabas. Mas, a prevalecer, é a privatização dos portos capixabas e também essa coisa dos portos de águas profundas, como estamos construindo em Aracruz, no Imetame. É possível que daqui alguns anos esse problema seja mitigado e aí possa voltar de fato exportar café capixaba por portos capixabas.

Folha da Vila – Quais as novas tecnologias que estão sendo implementadas na cafeicultura do Estado?

Marcus Magalhães – Quando se fala em tecnologia, é a agricultura 4.0, agricultura 5.0, que é trazer máquinas para colher café, tanto as colhedoras no conilon como as colheitadeiras. O uso de drone nas lavouras para fazer também a questão de adubo defensivo nas lavouras por drone. Essa modernização da gestão das fazendas, também no interior, é muito importante.

Essa tecnologia que vem sendo aplicada e vista no Espírito Santo e no Brasil, é condição ímpar para gente ter produtividade em escala e ter condição de brigar no mercado global de igual para igual. É mecanizar as lavouras tanto na questão das colheitas, como também na utilização de drones, na fértil em irrigação, na irrigação por gotejamento.

Existem várias tecnologias no campo sendo colocadas à prova e também a questão das startups olhando preço de café. Tem startups vendo a questão da gestão das fazendas. Ou seja, nós estamos rejuvenescendo o agro capixaba com essa chegada mais forte de tecnologia ao campo. E, diga se de passagem, isso é condição que o agro tem para enfrentar os desafios mercadológicos que nós temos pela frente.

Folha da Vila – A cafeicultura capixaba é a 3ª maior do mundo. Qual a importância do café para a economia do Espírito Santo?

Marcus Magalhães – O Espírito Santo hoje, como já disse, é o segundo maior produtor de café do Brasil e o primeiro em produção de café conilon. É uma atividade que está presente praticamente nos 78 municípios do Espírito Santo e é responsável por uma grande parte do Produto Interno Bruto (PIB) do Espírito Santo. É uma atividade que fixa o homem no campo. É uma atividade que socializa o recurso de maneira muito interessante no interior do Estado.

E quando se fala em café, temos que falar de café da lavoura a xícara. Ou seja, não é só produzir café no Espírito Santo em termos de lavoura. Nós também temos todo um arranjo produtivo aqui de indústrias capixabas que fazem a sua diferença, que colocam esse café no varejo. Ou seja, é uma atividade que agrega muita mão de obra, tanto no campo quanto nas cidades, e que fixa o homem no campo.

Acredito que o café do Espírito Santo no agro é um dos vetores de grande importância para ter o Espírito Santo nesse rol de grandes estados agro brasileiros. Nós temos aqui também a questão da proteína animal, também muito forte, com granjas, tanto em Santa Maria quanto no Sul do Espírito Santo. Tem uma parte de silvicultura também muito forte e uma parte de fruticultura em Linhares, muito forte. Temos um case que se transformou nos últimos anos, que é a questão das especiarias.

Hoje, pimenta já é um arranjo produtivo maior do que a fruticultura. Aí temos a parte de pecuária e parte de gado leiteiro, dos seus laticínios. O Espírito Santo é um estado agro. Por mais que a gente tenha essa pegada de distribuição, essa pegada de industrialização de petróleo e gás. Mas se nós olharmos de fato e de direito para o Espírito Santo, eu não tenho medo de afirmar que o Espírito Santo é o estado agro, é o Espírito Santo que fixa o capixaba no campo, que socializa o recurso no interior e que tem uma condição cada vez mais de se transformar.

Como eu sempre digo, um pequeno grande estado. E isso faz com que a gente tenha esse dever de casa e essa sensação boa de viver, trabalhar e construir um Estado cada vez melhor. Para os capixabas é isso, é o agro fazendo a diferença, é o agro levando riqueza do campo à cidade, alimentando o seu povo e dando condição ao Espírito Santo de buscar cada vez mais um lugar diferente nesse País.

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