quinta-feira, 19 de março de 2026

Do “barraco” ao tribunal: o sonho possível da juíza Ândrea Zani

A cena que marca a virada na vida de Ândrea Carla Zani não aconteceu em um gabinete nem em uma cerimônia oficial. Ela guarda a imagem da avó, Dona Donília, ajoelhada no chão da casa onde moravam, chorando e agradecendo a Deus. Naquele dia, o nome da neta havia acabado de aparecer na lista de convocados para a prova oral do concurso da magistratura do Trabalho.

“Uma imagem que eu tenho muito forte foi quando saiu o meu nome. Eu lembro muito bem da minha avó ajoelhando e chorando, agradecendo a Deus por eu ter passado”, lembrou a juíza.

Criada no bairro Jardim América, em Cariacica, Ândrea viveu naquela casa simples até depois de ingressar na faculdade de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Filha de mãe solteira, neta de um pedreiro e de uma merendeira, ela cresceu em meio a dificuldades financeiras e precisou assumir responsabilidades cedo. “Sempre foi com muita dificuldade. Meu avô era pedreiro, minha avó merendeira, e a gente morou ali durante muitos anos, inclusive quando eu já estava na faculdade”, conta.

Hoje, aos 50 anos, ela é juíza titular da 6ª Vara do Trabalho de Vitória, no Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região (TRT-17). O caminho até ali, no entanto, foi marcado mais por constância do que por atalhos.

Trabalho antes do sonho
Ândrea começou a estagiar aos 15 anos para ajudar nas contas da casa e garantir algum dinheiro próprio. “Eu já estava estagiando para ajudar em casa e para ter minhas coisinhas”, diz. Sem condições de pagar escola particular, precisou traçar estratégias para estudar. O sonho de cursar o antigo Colégio Nacional deu lugar a uma decisão prática. “Ou eu estudava no Estadual ou passava na Escola Técnica. Tive que estudar para passar na Escola Técnica”, lembra.

Ela foi aprovada e cursou Edificações e, depois, Segurança do Trabalho. A graduação em Direito só foi possível porque passou na Ufes. “Não tinha como fazer outra. Eu precisava trabalhar e fazer a faculdade ao mesmo tempo”, afirma. Durante o curso, conciliou aulas, estágios e emprego, o que acabou atrasando a formatura em um semestre.

Ainda na universidade, Ândrea estagiou no INSS pela manhã e em um escritório de advocacia à tarde, enquanto cursava as disciplinas à noite. “Teve um período em que eu fazia dois estágios. Foi bem puxado”, relata.

O silêncio como apoio
Apesar do desejo antigo de seguir a magistratura, a ideia de se tornar juíza parecia distante por muitos anos. A falta de referências próximas na área e as dificuldades financeiras alimentavam uma sensação constante de impossibilidade. Essa descrença fez com que Ândrea adiasse, por muito tempo, o início dos estudos para concursos.

“Eu achava que não era possível. Pensava: como é que uma pessoa que veio dessa origem, com tanta dificuldade, ia conseguir passar?”, confessa Andrea.

A decisão veio aos 30 anos, após a publicação de um edital. Sem dinheiro para cursinhos, apostou no que tinha ao alcance. “O dinheiro que eu tinha, eu comprava livro. Não tinha outra opção”, conta. Foram dois anos e meio de preparação, conciliando trabalho e estudo, até a aprovação.

Nesse período, o apoio mais firme veio de casa. Dona Donília preparava marmitas todos os dias e cuidava para que nada interrompesse o momento de concentração da neta. “Ela não podia nem varrer a casa quando eu estava estudando. Garantia o silêncio absoluto”, diz Ândrea. “Minha avó é o meu braço direito.”

Ao lado dela, também estava Eduardo, companheiro de quase três décadas. Juntos há 29 anos e casados há 17, ele compreendeu cedo que o sonho exigiria renúncias. “A gente abriu mão de sair, de ficar junto durante a semana. Ele entendeu que aquele tempo era necessário”, relata. Quando possível, Eduardo também ajudava financeiramente, garantindo que ela pudesse seguir estudando. “Esse apoio foi essencial.”

A aprovação veio em 2008, no concurso do Tribunal Regional do Trabalho de Campinas (SP). A mudança para outro estado foi difícil, principalmente pela distância da família e do então namorado. Após cerca de um ano e meio, ela conseguiu retornar ao Espírito Santo por meio de uma permuta.

Disciplina que atravessa a vida

A rotina atual da magistrada segue um padrão rígido, construído desde a infância. Ândrea vive com o marido e 12 gatos, que funcionam como despertador natural. “Eles já me acordam muito cedo para cuidar deles”, conta.

De segunda a sexta-feira, ela treina com personal trainer logo nas primeiras horas da manhã, antes de seguir para o tribunal, que inicia o expediente após o meio-dia. Apesar das postagens fitness nas redes sociais, Ândrea é direta sobre a relação com a musculação. “Vou ser bem sincera: não gosto de academia, não gosto de musculação. Mas tenho disciplina e dedicação para ir todo dia e seguir as orientações”, afirma.

No trabalho, a mesma lógica se impõe. “Eu não gosto de atraso. Minhas audiências começam sempre no horário”, diz. Segundo ela, a organização da equipe e a disciplina ajudam a manter sentenças em dia, mesmo diante da alta demanda.

Constância como conselho

Ao olhar para trás, Ândrea reconhece que a disciplina foi moldada pela necessidade. “Desde muito cedo eu tive que me virar sozinha. Nada ia chegar de graça”, afirma. A irmã costuma brincar que ela não teve adolescência, algo que a magistrada encara como parte da construção de quem se tornou.

Para quem enfrenta dificuldades semelhantes, Ândrea evita fórmulas prontas e aposta na persistência. “Nunca é tarde para começar. Se você só tem uma hora por dia, estude uma hora. Não se compare com quem tem mais recursos”, orienta. Segundo ela, o maior obstáculo costuma ser interno. “O maior concorrente da gente é a gente mesmo, é vencer a nossa autossabotagem.”

Com a carreira consolidada e a casa da avó reformada em Jardim América, Ândrea mantém uma visão pragmática sobre o próprio percurso. “Valeu muito a pena ter parado um tempo e pensado: eu preciso acreditar em mim”, resume. Para ela, mais do que chegar, o essencial foi aprender a continuar.

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