sábado, 17 de outubro de 2026

Páscoa deve movimentar R$ 71,9 milhões no comércio do ES

Entre ovos de chocolate, bacalhau e os ingredientes da tradicional torta capixaba, a Páscoa de 2026 deve injetar R$ 71,9 milhões na economia do Espírito Santo, confirmando o segundo ano consecutivo de crescimento do varejo no período. Mesmo em um cenário de consumo ainda cauteloso, a data mantém sua força simbólica e comercial, impulsionando as vendas em diferentes segmentos do comércio.

A projeção representa alta de 3,1% em relação à Páscoa de 2025, quando o volume de vendas somou R$ 69,3 milhões. O avanço está associado à melhora gradual das condições financeiras das famílias, com redução da inadimplência e do endividamento, além do aumento da intenção de consumo.

As análises são do Connect Fecomércio-ES (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo), com base nos dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo o coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, o crescimento reflete um equilíbrio entre recuperação e cautela. “A Páscoa deste ano combina melhora no ambiente econômico com um consumidor mais atento aos preços. Isso sustenta o crescimento, mas em um ritmo moderado”, afirmou.

Os segmentos mais diretamente ligados à data devem concentrar o maior fluxo de vendas. Supermercados, atacarejos e lojas especializadas em chocolates tendem a registrar maior procura, impulsionados pela demanda por itens típicos do período.

Apesar do cenário positivo, a inflação ainda exerce influência relevante sobre as decisões de compra. No Espírito Santo, o índice geral acumulado em 12 meses até fevereiro de 2026 chegou a 4,3%, acima da média nacional (3,8%). Entre os itens mais consumidos na Páscoa, os preços apresentam comportamentos distintos.

Os chocolates seguem pressionados, com altas acumuladas de 16,51% para barras e bombons e de 11,32% para chocolate em pó. Já o bacalhau registra aumento de 13,35% no período. Por outro lado, itens importantes para a torta capixaba ajudaram a aliviar o custo das celebrações, como o azeite de oliva, que acumula queda de 29,64% em 12 meses, e os ovos, com recuo de 19,71%.

Para Spalenza, esse cenário exige atenção tanto de consumidores quanto de empresários. “A inflação continua sendo um fator determinante. O consumidor está mais criterioso, pesquisa preços e prioriza o melhor custo-benefício. Isso exige do varejo estratégias mais ajustadas e sensibilidade à demanda”.

Outro ponto de destaque é o comportamento da alimentação. Enquanto os preços da alimentação no domicílio caíram 0,7%, favorecendo comemorações em casa, a alimentação fora do lar subiu 7,8%, o que pode limitar gastos com refeições prontas. Já os custos com recreação avançaram 11%, encarecendo atividades de lazer típicas do feriado.

Diante desse cenário, a Páscoa de 2026 reflete uma tendência já observada no varejo: o consumo segue ativo, mas mais seletivo. “Mesmo com restrições orçamentárias, a data mantém sua relevância. O consumidor pode ajustar o volume ou o tipo de compra, mas dificilmente deixa de participar desse momento, que tem forte apelo cultural e afetivo”, ressaltou Spalenza.

Páscoa da experiência
O encarecimento do cacau no mercado internacional, intensificado por restrições recentes às importações de países como a Costa do Marfim, tem pressionado os custos da indústria e contribuído para a elevação dos preços dos chocolates no Brasil. Esse movimento, somado a um cenário de renda mais comprometida e consumo cauteloso, tem contribuído para uma mudança relevante no comportamento do consumidor durante a Páscoa.

Diante de produtos mais caros, parte da demanda passa a se reorganizar, deslocando o foco da compra tradicional de ovos de chocolate para experiências mais significativas e personalizadas. De acordo com o Connect Fecomércio-ES, em vez de priorizar exclusivamente o produto, cresce o interesse por vivências que reforçam o caráter simbólico e afetivo da data, como kits personalizados, ovos artesanais, oficinas de confeitaria, cestas temáticas e momentos compartilhados em família.

“Essa tendência reflete uma lógica já observada em outros segmentos do consumo: em contextos de restrição orçamentária, a experiência, entendida como a combinação entre produto, apresentação, personalização e emoção, passa a desempenhar papel central na decisão de compra”, explicou o coordenador do Observatório do Comércio.

Para o varejo, o movimento representa uma oportunidade estratégica. “Pequenos empreendedores e negócios locais, especialmente aqueles com maior flexibilidade produtiva, ganham espaço ao oferecer produtos diferenciados e adaptados ao perfil do cliente. Ao mesmo tempo, empresas de maior porte têm buscado inovar em portfólio e comunicação, incorporando elementos que ampliem a percepção de valor para além do preço”, frisou Spalenza.

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