Mais um paciente do Espírito Santo vai receber o tratamento experimental com polilaminina – substância capaz de regenerar lesões na medula espinhal – mediante cumprimento de decisão judicial.
O homem, de 70 anos, é o terceiro paciente no Estado a receber o medicamento, ainda em fase de testes clínicos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A aplicação ocorreu na manhã de sábado (17), no Hospital Estadual de Urgência e Emergência São Lucas, em Vitória.
O médico Olavo Borges Franco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), será um dos profissionais a participar do procedimento, segundo informou o coordenador do Grupo de Trabalho Intersetorial (GTI) da Polilaminina no Estado, Mitter Mayer.
De acordo com Mitter, o idoso, que mora em Cariacica, se acidentou após cair de um telhado, lesionando a vértebra T12. O acidente aconteceu na última terça-feira à tarde. Segundo os estudos, a aplicação da medicação deve ocorrer dentro da janela terapêutica considera crítica, ou seja, antes de 72 horas após o acidente.
“Mas o Luiz Fernando Mozer (capixaba de 37 anos que sofreu um acidente de moto durante uma competição de motocross), que foi o primeiro paciente capixaba, recebeu a substância seis dias depois. Porque a polilaminina, além de ajudar na regeneração, tem uma ação anti-inflamatória na região”.
O paciente, de acordo com Mitter, está estável, lúcido e sabe da medicação. “Quando a pessoa tem uma lesão completa, que é exatamente esse caso, a perspectiva de ela ter alguma sensibilidade ao movimento, da lesão para baixo, é praticamente zero”.
“Esse medicamento, que é único no mundo, está demonstrando ser promissor para esse tratamento. Ele vai revolucionar a história da medicina”, destaca o coordenador do GTI.
A aplicação da polilaminina é única, e o paciente precisa de uma reabilitação intensiva, explica Mitter.
“Isso é o que estamos buscando fazer com todos os pacientes que recebem o medicamento experimental aqui no Estado. Ele precisa reaprender os movimentos”.
Como a polilaminina funciona
A polilaminina é baseada na laminina, uma proteína natural que forma uma grande malha durante a fase embrionária e auxilia na comunicação entre neurônios. Com o tempo, essa proteína se torna rara no organismo adulto.
O fármaco é resultado de 25 anos de pesquisa liderada pela professora doutora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o laboratório Cristália.
tatiana descobriu que era possível recriar em laboratório essa malha, extraindo a proteína de placentas, e aplicá-la diretamente na região lesionada da medula.
Quando reintroduzida no corpo, a polilaminina ajuda os neurônios a formarem novos caminhos para os impulsos elétricos que permitem movimentos.
O tratamento consiste em uma aplicação cirúrgica única no ponto da lesão, geralmente dentro de até 72 horas após o acidente, aumentando as chances de recuperação.
Testes
Os primeiros testes foram realizados em animais e mostraram efeitos animadores.
Em ratos, os sinais começaram a aparecer em 24 horas e a recuperação em cerca de oito semanas; em cães houve diferentes níveis de recuperação do movimento das patas.
Nos estudos clínicos iniciais em humanos, 8 voluntários receberam a medicação até três dias após a lesão. O efeito foi visto como promissor.
Autorização
O estudo clínico de fase 1 autorizado pela Anvisa vai avaliar a segurança da polilaminina em cinco pacientes com idade entre 18 e 72 anos.